
João também dá o peixe. Não em cestos distribuídos à multidão, como no milagre bíblico atribuído a Jesus Cristo, mas em notas de cinquenta, pix e cartão de crédito passado às pressas em barracas espalhadas pelo interior da Bahia. Todos os anos, no mês de junho, quando as fogueiras são acesas e a sanfona começa a puxar o forró, São João Batista repete, à sua maneira, o milagre da multiplicação. Multiplica renda, movimento e oportunidade.
Na Bahia, a expectativa é que o São João 2026 movimente entre R$ 2,1 bilhões e R$ 2,5 bilhões na economia estadual, impulsionando setores como comércio, turismo, hotelaria, alimentação, transporte e serviços. Para muitos baianos, junho funciona como uma espécie de décimo terceiro nordestino – um período em que o trabalho aumenta, o consumo se intensifica e a renda extra ajuda a reforçar o orçamento muito além dos dias de festa.
Entre os nomes mais tradicionais da cidade está o produtor Rosival Ferreira Pinto, que carrega mais de um século de história familiar na fabricação dos licores. “A produção de licor começou com meu avô, depois passou para o meu pai, hoje está comigo e esse legado eu já estou passando para meu filho”, contou.
O produtor explicou que os primeiros sabores fabricados pela família foram jenipapo e maracujá. Hoje, a variedade já ultrapassa 30 sabores, e é justamente no São João que a expectativa para vender mais aumenta.
“Em ano de Copa, como este em que estamos agora, a expectativa cresce ainda mais. O pessoal associa o licor à festa junina e, como a Copa do Mundo é no mês de junho, as pessoas começam a comemorar tomando licor e comendo um amendoinzinho em rodas de bar e mesas de familiares. Segundo ele, a média de produção é em torno de 100 mil litros. “Essa é a nossa meta, ou seja, produzimos essa quantidade para tentar vender e ultrapassar”, relatou.

Aos 101 anos, Tia Nem continua inspirando gerações
Outro símbolo da tradição cachoeirana é Angelina Santos Cordeiro, mais conhecida como Tia Nem. Aos 101 anos, ela se tornou referência na produção artesanal de licor e mantém o negócio familiar em funcionamento com a ajuda da filha Mariana Gouveia.
“Eu comecei fazendo para casa, porque minha família é grande, então todo mundo comprava licor quando chegava aqui. Então, eu comecei a fazer. E aconteceu que, depois de um tempo, eu estava fazendo para todo mundo. De lá para cá, eu não parei mais. Hoje eu tenho a minha equipe”, contou.
Entre os sabores preferidos dos consumidores estão clássicos do Recôncavo, como jenipapo, tamarindo, maracujá e cajá.
Segundo Mariana, o crescimento das vendas durante o período junino é significativo e a expectativa é superar os resultados obtidos em 2025. Ela disse ainda que o negócio também acompanhou as transformações do mercado. O que antes era vendido apenas na porta de casa hoje alcança consumidores de diferentes cidades por meio de serviços de entrega.
“Antigamente, era só aqui na porta. Só que hoje, como a procura aumentou, tem um rapaz que faz esse transporte. Todo dia ele vai à Feira de Santana. Em Salvador, a gente faz a mesma coisa com o pessoal da topic. Pedimos para eles buscarem aqui e entregarem na residência ou então, marcarem em algum lugar e a pessoa vai buscar”, explicou Mariana.
Se há um segredo para a tradição dos licores de Cachoeira atravessar gerações, Tia Nem acredita que a resposta é simples: “O que é bom, já viu, né? Se repete”, disse, aos risos.

Impacto econômico no setor alimentício
A força econômica do São João também chega às mesas dos bares e restaurantes. Em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, o empresário Rodrigo Bacelar, proprietário de três unidades do Boteco do Petisco, acompanha há 13 anos a movimentação provocada pelo período. Segundo ele, os investimentos realizados nos últimos anos em grandes atrações ajudaram a fortalecer o calendário da festa na cidade.
Para este ano, Rodrigo aposta na programação musical como estratégia para atrair clientes em uma de suas unidades. O espaço contará com apresentações de bandas e atrações de forró. Além da música, o empresário destaca que os pratos e bebidas típicos da época também contribuem para impulsionar o faturamento durante o mês de junho. No cardápio, não faltarão itens tradicionais como amendoim, quentão, bolos e licor, produtos que costumam registrar aumento na procura durante os festejos.

Frio, forró e vitrines cheias
Os efeitos econômicos do São João também são vistos no comércio de vestuário. Com a chegada dos festejos e das temperaturas mais baixas, cresce a procura por roupas e acessórios típicos da época. Há 38 anos atuando no segmento, a empresária Núbia Coelho, sócia da Pé Quente Modas, em Vitória da Conquista – cidade conhecida como a Suíça Baiana por seu clima mais ameno nesta época do ano -, afirmou que junho está entre os períodos mais importantes para a venda na região.
Segundo a empresária, a procura começa antes do mês e reúne tanto consumidores em busca de proteção contra o frio quanto aqueles que querem montar o figurino para os arraiás.
“Os produtos mais procurados são meias-calças, segunda pele, peças térmicas, pijamas e também roupas voltadas para o período junino. O frio de Vitória da Conquista ajuda muito nesse crescimento das vendas. E, além disso, não podemos esquecer que este ano temos a Copa [do Mundo], que termina animando ainda mais os consumidores e movimentando o comércio”, destacou.
Para Núbia, o impacto dos festejos vai além do aumento das vendas e contribui diretamente para a geração de renda na cidade. “O comércio se fortalece, vários setores são beneficiados e muitas famílias conseguem aumentar sua renda nesse período. É uma época que movimenta bastante a economia e aquece o comércio de forma muito positiva”, afirmou.
Entre rendas e anáguas – um dos períodos mais intensos do ano
Por trás das quadrilhas, dos vestidos rodados e das roupas típicas que colorem os festejos existe uma rede de profissionais que vê no São João um dos períodos mais intensos do ano. Em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, o Carcará Ateliê é um dos negócios impulsionados pela temporada junina. Segundo o proprietário, Gabriel Souza, a procura por peças aumenta significativamente neste período, principalmente por causa das apresentações escolares e das quadrilhas juninas.
O volume de encomendas é tão grande que, em muitos momentos, é necessário recorrer ao apoio de outros profissionais para cumprir os prazos. “O aumento das costuras faz a gente trabalhar até mais tarde e desenvolver mais habilidades. Precisamos, às vezes, de uma mão de obra extra, principalmente se for essa questão voltada para as anáguas juninas, porque é um trabalho enorme”, ressaltou.
Em 2025, o ateliê produziu mais de 100 peças para uma única quadrilha junina. Neste ano, o foco está concentrado em vestidos, saias, corsets e peças destinadas ao público em geral.

São João impulsiona pequenos negócios e cria oportunidades de renda
Segundo a pesquisa Expectativas dos Pequenos Negócios Baianos para 2026, realizada pelo Sebrae/BA [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], o São João aparece como a segunda principal data comemorativa do ano para o aumento do faturamento dos pequenos negócios. O levantamento aponta que 53% dos empreendedores esperam crescer até 15% em relação ao período junino do ano anterior.
De acordo com o gerente regional do Sebrae em Irecê, Edirlan Souza, os festejos funcionam como uma verdadeira temporada econômica para centenas de municípios baianos.
“O São João funciona como uma verdadeira temporada econômica na Bahia, especialmente no interior. Ele aquece, ao mesmo tempo, várias frentes de geração de renda. A mais evidente é o comércio de alimentos e bebidas típicas – milho, amendoim, licores, bolos, canjica, pamonha, churrasquinhos e toda a culinária regional -, que movimenta ambulantes, produtores familiares e pequenos negócios. Logo em seguida vem a confecção e a venda de roupas e acessórios juninos, que aquece costureiras, artesãos e pequenos lojistas, e os serviços de beleza e estética, puxados pelo calendário intenso de festas.”
Para ele, o São João também funciona como porta de entrada para novos empreendedores.
“Muita gente começa de maneira temporária e informal e descobre ali uma vocação que depois se transforma em negócio permanente. A pesquisa Expectativas dos Pequenos Negócios Baianos para 2026 confirma essa importância. […] O São João também tem um papel importante de descentralização: ele leva oportunidade para cidades que dependem fortemente desse calendário festivo, fazendo o dinheiro circular mais rápido na economia local e abrindo espaço para novos negócios que, em outras épocas do ano, talvez nem existissem.”
O analista da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae/BA, Anderson Teixeira, também destaca que o empreendedorismo sazonal ligado aos festejos ativa cadeias produtivas inteiras, especialmente em municípios menores. Segundo ele, “o dinheiro circula mais rapidamente no comércio local e beneficia diferentes perfis de trabalhadores.”
Entre os efeitos mais percebidos estão:
- geração temporária de empregos e ocupações;
- aumento da renda de famílias;
- fortalecimento da economia local;
- estímulo ao turismo regional;
- valorização da cultura como ativo econômico.
Principais atividades empreendedoras impulsionadas pelo São João
Entre as atividades mais impulsionadas pelo período junino estão:
- Comércio de alimentos e bebidas típicas: milho, amendoim, licores, bolos, canjica, pamonha, churrasquinhos e comidas regionais movimentam ambulantes, pequenos produtores e negócios familiares;
- Confecção e venda de roupas e acessórios juninos: costureiras, artesãos e pequenos lojistas registram aumento nas vendas de vestidos, camisas xadrez, chapéus, botas e adereços temáticos;
- Serviços de beleza e estética: maquiagem, penteados e produção visual ganham força com o calendário de festas e eventos;
- Turismo e hospedagem informal: aluguel de casas, quartos e hospedagens por temporada cresce nas cidades com festas tradicionais;
- Transporte e mobilidade: motoristas de aplicativo, mototaxistas e transportes alternativos ampliam a renda durante o período;
- Produção cultural e eventos: músicos, bandas, quadrilhas juninas, decoradores, iluminadores, sonorização e produtores de eventos encontram forte demanda sazonal.

Copa do Mundo e São João: a dupla que promete aquecer o consumo
Além da força tradicional dos festejos, 2026 apresenta um ingrediente extra para movimentar a economia: a Copa do Mundo. Um levantamento divulgado pela Fecomércio-BA [Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia] aponta que os festejos devem gerar crescimento médio de 4% nas vendas de segmentos ligados ao período, como supermercados, vestuário, tecidos, armarinhos, bebidas e artigos típicos.
A combinação entre futebol e festas juninas tende a ampliar a circulação de consumidores em bares, restaurantes, casas de eventos e encontros familiares, favorecendo diferentes setores do comércio e serviços.
No turismo, a expectativa da entidade é de crescimento de 3% em relação a junho do ano passado, resultado que deve ser sustentado principalmente pelos deslocamentos regionais para os municípios que realizam festas tradicionais.

Inflação do São João é pressionada por transporte e serviços
Embora a expectativa econômica seja positiva, alguns custos ligados ao período seguem em alta. Dados da Fecomércio-BA, com base no o IPCA/IBGE, mostram que a inflação junina em 2026 tem sido mais pressionada pelos serviços e transportes do que pelos alimentos típicos. Entre os itens com maiores altas acumuladas em 12 meses até abril estão gasolina (+15,14%), passagem aérea (+9,51%), ônibus intermunicipal (+9,02%), etanol (+8,65%) e hospedagem (+7,96%).
Já alguns ingredientes tradicionais apresentaram comportamento mais favorável. O açúcar cristal registrou queda de 16,49% e a farinha de mandioca recuou 3,38%. Por outro lado, produtos como mandioca (11,41%) e carne-seca e de sol (8,36%) apresentaram aumento expressivo. No grupo de bebidas, os reajustes permaneceram moderados. Refrigerantes e água mineral subiram 2,19%, enquanto a cerveja teve alta de 1,44%.
“Mesmo diante de custos mais elevados em alguns segmentos, nossa expectativa é de um período positivo para a economia estadual, sustentado pela força cultural da festa, pela ampla circulação regional de consumidores e pelo estímulo adicional trazido pela Copa do Mundo”, afirmou o presidente do Sistema Comércio BA – Fecomércio, Sesc e Senac -, Kelsor Fernandes.
Cultura que gera emprego e movimenta o interior
Neste ano, o Governo da Bahia anunciou apoio à realização do São João em mais de 280 municípios. Ao apresentar os investimentos, o governador Jerônimo Rodrigues destacou a dimensão econômica da festa.
“Mais uma vez, o Governo da Bahia garante apoio aos municípios para que possamos realizar um São João forte, seguro, organizado e que gere emprego, renda e oportunidades em todas as regiões da Bahia. Além da programação cultural, mobilizamos um grande esquema de segurança, saúde e infraestrutura para garantir que o São João aconteça com tranquilidade em toda a Bahia”, afirmou.
Segundo o secretário de Turismo, Maurício Bacelar, os festejos juninos continuam sendo um dos principais vetores de atração de visitantes para o estado. “O São João é a maior manifestação cultural do povo nordestino e, com os investimentos do Governo do Estado, atraímos milhões de visitantes que movimentam a economia, gerando emprego e renda para os baianos”, destacou.
De acordo com a Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), os recursos destinados aos festejos ultrapassam mais de R$ 146 milhões e contemplam a contratação de artistas e atrações culturais em diversas regiões do estado. Cada cidade apoiada terá programação própria durante os festejos juninos. Na capital baiana, o governo garante uma ampla programação no Pelourinho e em diversos bairros de Salvador.
O secretário de Cultura, Bruno Monteiro, destacou ainda uma medida voltada para a preservação da identidade cultural da festa. “Este ano temos uma novidade importante: a reserva de pelo menos 25% dos investimentos para a contratação de forrozeiros, bandas de forró e trios nordestinos, fortalecendo a identidade cultural que está na raiz dos festejos juninos”, salientou.

Muito além da festa
Além dos investimentos em atrações culturais, o São João 2026 da Bahia contará com uma ampla estrutura de apoio para atender o aumento da circulação de pessoas durante o período. Na área de segurança, mais de 27 mil agentes atuarão em 283 municípios, sendo 271 no interior e 12 na Região Metropolitana de Salvador. A ação terá apoio de drones, helicópteros e câmeras de monitoramento.
Na área da saúde, haverá reforço nos plantões hospitalares, instalação de stands de testagem rápida em municípios do interior e distribuição de preservativos durante o período festivo.
As ações incluem ainda iniciativas voltadas para a educação, como o Arraiá da Sustentabilidade, que mobilizará quase mil escolas estaduais em atividades que unem tradições juninas, conscientização ambiental e reaproveitamento de materiais.
FONTE: A TARDE







